A partir da obra de William Shakespeare Rei Lear decide dividir o seu reino entre as suas filhas. Antes de o fazer, porém, desafia-as a provar o seu amor. As duas mais velhas agem conforme esperado, mas a mais nova recusa-se a afirmar seja o que for. A relutância desta enfurece-o e é banida para sempre. Lear divide assim o país entre as suas duas filhas mais velhas. Julgando mal a sua lealdade, rapidamente se vê despojado de todas as armadilhas de estado que o definiam - poder e riqueza.
Nesta versão minimalista de Rei Lear, três intérpretes dão corpo a todas as personagens, movendo-se numa ação incessante de liberdade. O meta-teatro, que expõe a relação entre ficção e realidade, revelando os seus dispositivos de construção, emerge como a chave deste jogo. Um mecanismo vital para resistir à tragédia. Não se trata apenas de narrar uma história, trata-se de habitá-la, desafiá- la, desdobrá-la em movimentos que transformam corpos, vozes e espaços em algo instável, efêmero, intencionalmente artificial. O palco, esse território mutável, é o lugar onde as personagens se dissolvem e se recompõem, onde os intérpretes transitam sem aviso entre camadas de interpretação, expondo as entranhas do poder e da ganância. São eles, os atores, o coração pulsante da obra, ao mesmo tempo múltiplos e singulares, enquanto erguem e destroem o jogo cénico, revelando um espetáculo que é tanto sobre Rei Lear quanto sobre a própria essência de contar uma história.
A Companhia do Chapitô — 30 anos Fundada em 1996, a Companhia do Chapitô afirma a comédia como uma poderosa ferramenta de reflexão sobre a realidade física, social e política. Ao longo de três décadas, construiu uma linguagem artística própria, assente no trabalho físico do ator, na criação coletiva e numa permanente transformação dos seus processos de criação. Os seus espetáculos são multidisciplinares e privilegiam o gesto e a imagem como principais meios de comunicação, convidando a imaginação do público e promovendo uma relação direta, próxima e cúmplice com os espectadores. Esta opção estética permite ultrapassar barreiras linguísticas e afirmar uma clara vocação universal, que tem sustentado uma intensa circulação nacional e internacional. Em 30 anos de atividade, a Companhia do Chapitô criou 43 espetáculos originais, apresentados em mais de 300 palcos em Portugal e em países como Alemanha, Argentina, Brasil, Cabo Verde, China, Colômbia, Costa Rica, Equador, Eslováquia, Espanha, Estados Unidos da América, Finlândia, França, Grécia, Irão, Itália, Noruega, Rússia, Suécia e Uruguai, somando mais de 600 apresentações internacionais.