Da autoria de Felipe Cabezas, Inferno conta a vida tragicómica de Tristano Martinelli, notável ator italiano que criou a personagem de Arlequim em Paris nos finais do século XVI. A obra centra-se no processo criativo de Martinelli, numa Europa conservadora, com um renascimento ainda atrasado, atormentada por guerras, peste e fome. Aqui, o nosso Martinelli reivindica o Primeiro Arlequim. O autêntico. A sua criação representa uma juventude abandonada à própria sorte. Uma juventude que tem que reinventar-se para sobreviver. Uma juventude viciada pela imagem e pela superficialidade. O Arlequim de Martinelli não é um Arlequim piegas e adocicado pela pastelaria cortesã, nem um boneco de caixa de música, nem um criado mascarado desprovido da dor que acompanha a miséria. Este Arlequim é um pobre diabo que vem do inferno, que conheceu a fome e a miséria, e que agora quer rir. Martinelli venderá o seu corpo e a sua alma, em troca de fama e fortuna, a este ser bufão zombeteiro, que com as suas risadas e piruetas o vai levar ao mais alto sucesso. O ator conta-nos a sua história, terrena e infernal, desde o limbo, eterno e infinito, até aos seus últimos dias.
O espetáculo é produzido, encenado e interpretado por Filipe Crawford que regressa a este autor de quem já produziu e representou A última noite do Capitão, estreado em 2017 e ainda em repertório. Filipe Crawford tem um percurso teatral ligado ao teatro de máscaras e à Commedia dell’Arte tendo-se especializado na representação de monólogos. Os primeiros que representou, A História do Tigre, O Primeiro Milagre do Menino Jesus e Outras Histórias, As Aventuras de João Padão à descoberta das Américas e O Santo Jogral Francisco são da autoria de Dario Fo. O ator produziu e representou também um monólogo adaptado da obra de Roland Dubillard, autor francês do teatro do absurdo, Confissões de um Fumador. Ultimamente Filipe Crawford interessou-se pela obra de Felipe Cabezas e pelas suas tragicomédias sobre a vida de ilustres atores de Commedia dell’Arte, que, para além da recriação deste género teatral, revelam um contributo essencial para a História do Teatro Europeu. O espetáculo tem estreia marcada para o dia 26 de fevereiro de 2026, no Teatro da Cerca de São Bernardo, em Coimbra, com o apoio da Escola da Noite, na semana em que se festeja o Dia Internacional da Commedia dell’Arte. O espetáculo, que poderá ser apresentado juntamente com outras atividades que se centram sobre a temática da Commedia dell’Arte, como, por exemplo, um Workshop sobre este género teatral, assinala também os 50 anos de carreira de Filipe Crawford. Concebido para a itinerância, este projeto tem já apresentações previstas para Lisboa, Porto e Leiria(integrando o Festival Acaso de 2026)
Nasce em 1957 em Lisboa. Em 1976 ingressa no Curso de Teatro da Escola Superior de Teatro e Cinema e no ano seguinte estreia-se como ator no espetáculo “Quatro Soldados e Um Acordeão” de Richard Demarcy no Teatro da Comuna em Lisboa. Em 1980 estreia-se na televisão com o telefilme “O Visconde “, de Noémia Delgado, para a RTP e em 1983, é selecionado por Nicolau Breyner para a telenovela “Origens”. No mesmo ano termina a especialização em Encenação da E.S.T.C. com a peça “A Lição” de Ionesco. Um ano depois parte para Strasbourg, com uma bolsa do Governo Francês, para frequentar a Escola do Teatro Nacional desta cidade. Em 1987 continua os seus estudos em Paris, então como bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian, frequentando o Conservatório e o Instituto de Estudos Teatrais da Sorbone Nouvelle. No Conservatório de Paris é aluno de Mário Gonzalez com quem aprende o Jeu Masqué. De regresso a Portugal, dá os primeiros Cursos de Técnica da Máscara na Fundação Calouste Gulbenkian e em 1989 funda, com alunos seus, a Meia Preta, a primeira companhia Portuguesa especializada em Commedia dell’Arte. Em 1995, após a extinção da Meia Preta, Filipe Crawford cria a FC produções Teatrais para continuar a desenvolver o seu projeto de um teatro popular, de máscaras e comédia. Em 1997 cria a Escola da Máscara e em 1999 passa a dirigir o Teatro Casa da Comédia. Em 2001 cria o Festival Internacional de Máscaras e Comediantes, que tem 9 edições em espaços como o Castelo de São Jorge e o Museu da Marioneta, para além da Casa da Comédia, até 2012. Ao longo da sua carreira encenou mais de 60 espetáculos e entrou como ator em mais de 40 peças de teatro. No cinema e na televisão, a IMDB regista cerca de 90 participações de Filipe Crawford em filmes e projetos televisivos. É, no entanto, no teatro, principalmente como intérprete de monólogos, que também encena, que Filipe Crawford mais se tem destacado, em particular interpretando autores como Dario Fo, Roland Dubillard e, mais recentemente Filipe Cabeças. A par da sua carreira como ator e encenador, Filipe Crawford é reconhecido internacionalmente como Mestre de Técnica da Máscara e de Commedia dell’Arte, formações que continua a ministrar no País e no estrangeiro. Em fevereiro deste ano de 2025 lançou um livro, o Manual de Técnica da Máscara, sobre o trabalho de formação do ator nesta técnica particular.